Malta
Um mergulho na arquitetura sagrada e na devoção milenar da "Ilha dos Cavaleiros".

O Cenário
Diz a lenda que em Malta existe uma igreja para cada dia do ano. Embora o número oficial gire em torno de 359 para uma população pequena, a sensação ao caminhar pelas ruas de Valletta ou pelas vielas silenciosas de Mdina é de que a religiosidade é a própria argamassa que sustenta o arquipélago. Para o viajante que busca história e arquitetura, Malta não é apenas um destino de verão; é um santuário barroco flutuando no Mediterrâneo.


O Legado dos Cavaleiros de São João
Não se pode falar da arquitetura religiosa maltesa sem mencionar a Ordem dos Cavaleiros de São João. Quando chegaram à ilha no século XVI, transformaram a rocha nua em um bastião da cristandade. A arquitetura reflete essa dualidade: por fora, as igrejas parecem fortalezas militares, robustas e feitas do onipresente calcário cor de mel. Por dentro, porém, guardam uma explosão de arte, ouro e mármore, simbolizando a glória divina protegida pela espada.

A Joia da Coroa: Co-Catedral de São João
Em Valletta, a Co-Catedral de São João é o exemplo máximo dessa dualidade. Sua fachada austera engana os desavisados. Ao cruzar o portal, o visitante é atingido por uma opulência atordoante.
O Chão de Mármore: O piso é uma “colcha de retalhos” de lápides de mármore colorido, onde descansam os cavaleiros mais nobres, cada um contando uma história de heroísmo através de símbolos esqueléticos e brasões.
O Toque de Caravaggio: No oratório, a penumbra guarda “A Decapitação de São João Batista”, a obra-prima de Caravaggio e a única que ele assinou (no sangue do santo). É uma peregrinação obrigatória para qualquer amante da arte.
O Milagre da Rotunda de Mosta
Saindo da capital, a arquitetura assume proporções imperiais na cidade de Mosta. A Basílica da Assunção possui uma das maiores cúpulas autossustentadas do mundo, inspirada no Panteão de Roma. Mas é a história recente que atrai os fiéis: durante a Segunda Guerra Mundial, uma bomba alemã perfurou a cúpula e caiu no meio de uma missa com 300 pessoas. A bomba não explodiu. O evento é celebrado até hoje como um milagre divino, e a réplica do artefato está exposta na sacristia, unindo a fé à história bélica da ilha.


O Silêncio de Gozo: Santuário de Ta’ Pinu
Na ilha vizinha de Gozo, a arquitetura se funde com a paisagem árida e dramática. A Basílica de Ta’ Pinu, erguida isolada no meio do campo, é um local de peregrinação nacional. De estilo neorromânico e gótico, sua torre sineira rasga o céu azul, criando uma silhueta inconfundível. Diferente da opulência de Valletta, aqui reina o silêncio e a devoção pessoal, com corredores repletos de ex-votos (objetos deixados por fiéis em agradecimento por graças alcançadas), narrando histórias humanas de cura e esperança.
Uma Fé Viva. A beleza das igrejas de Malta vai além das pedras.

Ela pulsa nas “Festas” de verão, quando as paróquias competem em fogos de artifício e decorações, e nas procissões solenes da Semana Santa. Para quem aprecia arquitetura, Malta é uma aula ao ar livre de como a fé pode moldar a paisagem urbana. Para quem busca história, é o testemunho de uma ilha que, desde o naufrágio de São Paulo no ano 60 d.C., fez do sagrado a sua identidade mais profunda.
A História de São Paulo: Vale mencionar brevemente que, segundo os Atos dos Apóstolos, foi um naufrágio que trouxe o Cristianismo à ilha (São Paulo), o que dá um peso bíblico ao turismo local.